A rapariga voodoo deste livro acha-se marcada, amaldiçoada por um coração crivado de alfinetes, que a perfuram quando alguém dela se aproxima.
É ela quem aqui conta a própria história, através, é claro, da misteriosa visão dos lindos hypno-disk eyes.
O livro é, então, uma catarse, uma espécie de auto-biografia alternativa, da 5ª Dimensão.
Fala de corações crivados, partidos por fantasmas do passado, de alfinetes masoquistas mágicos, de como a falta de amor também é mau trato, de como a baixa auto-estima atrai e aceita passivamente a violência.
Fala do desamor de uma mãe e do amor que, noutra, é talvez excessivo, quem sabe para equilibrar cosmicamente a balança; da ausência de pai e de como às vezes um pai está melhor ausente.
Do suicídio e de como este passa (devia passar) a ser impossível quando temos filhos.
Fala das relações modernas, dos divórcios e segundos casamentos; dos filhos que são nossos, porque lhes demos vida, e daqueles que amamos, queremos que sejam, mas não são, nossos.
Fala sobretudo do amor, de como ele acontece raramente, nunca mais do que uma vez na vida, e de como ele nos eleva nas nuvens e, às vezes, nos deixa cair sem pára-quedas.
É um livro negro, mas feliz e não se estraga o final se se contar desde já que a rapariga voodoo também usar os alfinetes para espetar, conserva o sentido do humor e o do absurdo e -Hélas!! -, no final, sobrevive!
Enjoy.
EXCERTO:
Eras uma real dor no rabo, tradução livre.
Não tive nem um pensamento, nem um receio, nem remorsos - senão muito mais tarde - quando resolveste vir ao mundo antes da tua hora. Na altura, só alívio, tenho vergonha de te confessar.
Olhei para ti e desatei num choro convulsivo, como fica bem a qualquer mãe. Mas eram as hormonas.
Eras feio que metia dó, tinhas o cabelo preto, aos caracóis.
Assustaste-me.
Só mais tarde, quando te lavaram, percebi que era o resultado de uma qualquer substância (estavas porco, em suma): afinal eras loiro, como ainda és.
Lindo. E não são só os meus olhos de mãe.
Dos teus primeiros meses, no torpor de angústia em que vivi, não me lembro nem quero lembrar de nada. Não dei por ti.
Lembro-me, apesar disso, de sentir orgulho em diversas ocasiões. Como quando tinhas aquele casaco que te fazia parecer o Don Corleone. Don Manoel, chefe da Mafia, chamávamos-te.
Ou a primeira vez que te levei ao teu pediatra, com doze dias de vida, naquele fatito tamanho zero, que ainda assim te estava largo, bege com bolsinhos azul. Pinta!
Um dia, olhaste para mim. Olhaste mesmo.
Não que a primeira palavra que disseste tenha sido mamã.
Foi, é claro, Akira, mas não me importo. Foi esse maravilhoso animal quem, mesmo tendo ciúmes de morte de ti, mais te protegeu, por puro e belo instinto, durante aquele tempo.
Apaixonei-me perdidamente por ti desde esse dia. Tarde, eu sei, mas não tarde demais e largamente compensado pela intensidade.
Comentários
Joana Espain
2006-11-10 15:06:30
Boa tarde
Este é um livro surpreendente!
Trata-se de uma volta de 'montanha-russa' à complexidade de um mundo interior. Sem dúvida que a frontalidade e o realismo são características marcantes deste texto mas o que mais surpreende é a qualidade da escrita e a forma absorvente como somos guiados nesta viagem. Os factos vão sendo revelados ao longo de um fio torcido sem nunca se avistar a sua ponta, levando o leitor a fazer e desfazer juízos de valor a grande velocidade. Mesmos factos, mesmo realismo e outra estructura poderiam gerar resultados muito diferentes.
Assim fica revelado um enorme potencial que aguardamos ver utilizado...Se aqui o leitor é só um veículo voyerista..imagino como seria se nos fosse dedicada uma ficção...
Aguardamos então.
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